Mário da Conceição Barros nasceu em Setúbal e nunca saiu verdadeiramente de cá. Mesmo quando a vida o levou para longe da linha de água, para dentro das oficinas ruidosas, tornos e fábricas onde o tempo se media em turnos, foi sempre o mar que lhe ficou a bater por dentro. Amanhã, às 16h no Centro de Recursos Educativos e Culturais, inaugura uma exposição que dá corpo e vida à paixão de um avida, o rio Sado. È um conjunto sensível de uma alma marítima, contado por quem a viveu desde pequeno, na Rua da brasileira.
Há homens que aprendem a olhar o mundo com livros. Outros aprendem com as mãos. Mário pertence claramente ao segundo grupo. Vem de uma família “toda do mar”, como faz questão de sublinhar. Gente que pescava, que regressava a casa com histórias ditas à mesa, baldes de peixe para distribuir e diversas narrativas que misturavam sobrevivência e solidariedade.
Ele foi o que “escapou”, diz, quase em tom de desculpa. Escapou para uma oficina, onde começou por limpar tornos e acabou mecânico. Trabalhou em várias casas conhecidas da indústria setubalense, passou também por uma fábrica de peixe. Foi operário a vida inteira.
Mas o mar nunca se deixou esquecer. Comprou um bote, fez-lhe uma cabine com as próprias mãos e quando o desemprego lhe bateu à porta soltou as amarras e começou a trabalhar por conta própria. Voltou à pesca, às lulas, reorganizou a vida. E, em paralelo, foi amadurecendo a sua criatividade e vontade de dar vida ao seu projeto artístico.
As peças que agora apresenta são feitas a partir de matérias naturais tal como búzios, vieiras, estrelas-do-mar, fragmentos recolhidos ou oferecidos por pescadores amigos. “Eles chamam-me Marinho”, conta, com um sorriso no rosto. Há uma rede informal de cumplicidades que alimenta o seu trabalho: malas cheias de conchas que já não servem para nada, restos que o mar devolve ou que a pesca descarta. Nada aqui é decorativo no sentido fácil da palavra. Tudo carrega uso, história e cheiro a mar.
Mário pinta à mão, compõe lentamente, passa dias sobre a mesma peça. Não trabalha em série, não repete formas. Há uma recusa clara da reprodução e do mercado. As obras não estão à venda, afirma. Não por estratégia, mas por convicção. “Isto um dia será para um museu”, diz, pensando nas filhas, no futuro, na cidade. O gesto é de generosidade no sentido mais simples e mais raro, acredita que o que faz pertence ao comum.
A exposição tem por propósito alimentar também memória histórica da cidade. Em vários trabalhos, Mário evoca as comunidades piscatórias que moldaram Setúbal ao longo do século XX. Fala das décadas de 30 a 80, da longa costa entre Tróia e Sines, da chegada de famílias do Algarve, como a sua, e do Norte, da rivalidade entre sadinos e varinos, das disputas no mar, do roubo de peixe, das tensões constantes. Mas fala também do momento em que tudo isso se suspendia: quando o Vitória jogava, eram todos do mesmo lado. A cidade surge como um constante pano de fundo, um organismo vivo e em permanente mutação.
Essas camadas estão presentes nos quadros que apresenta: culturas que se cruzam, barcos diversos, redes que contam conflitos antigos e explicam como se vendia o peixe na rua antigamente. Não há legenda explicativa nem intenção didática direta. O que há é matéria, textura, composição. Cada peça existe uma única vez, como existe uma única vez cada maré.
O objetivo de Mário Barros, através desta exposição é divulgar a cidade. Pede aos setubalenses que venham e que contem aos outros o que viram. Que reconheçam dignidade do seu trabalho.. Sabe o valor do que faz, mas não o separa da comunidade onde nasceu.
Quanto ao futuro, não há plano, nem estratégia, nem carreira. Há apenas continuidade. “Continuar a fazer. Enquanto puder.” A paixão, diz ele, só acaba com a morte.
Mário, Marinho, setubalense de gema, é um homem que passou a vida a trabalhar com as mãos e encontrou nelas a sua forma mais livre de dizer o mundo.










