Existem registos desde 1855, mas reza a lenda que a receita da Bolacha Piedade já viajava a bordo para mares longínquos, fruto das suas características nutritivas e de durabilidade para consumo.
Isabel e Ana, ambas da família Piedade, são as detentoras deste segredo de mulheres: a receita. “Isto sempre foi um negócio de mulheres: a minha bisavó passou a receita à minha avó, a minha avó passou para a minha mãe e para as minhas tias, a minha mãe passou para mim e eu, se Deus quiser, hei de a passar à minha filha quando chegar o momento” Afirma Ana.
É que a Bolacha Piedade vai muito para além de uma simples curiosidade gastronómica da cidade: esta iguaria com sabor a erva-doce e ares da Serra da Arrábida tornou-se também num dos símbolos da Feira de Sant’Iago. Há mesmo quem, apesar do estabelecimento estar aberto todos os dias na Avenida Luísa Todi, se desloque ao recinto da Feira e aguarde muito tempo de pé na fila para manter a tradição.
No início do século passado, a Bolacha Piedade era vendida por rapazes em tabuleiros junta à doca para alimento das gentes do mar, referência mantida até hoje no logótipo da marca. Sempre foi um alimento barato, fabricado do povo para o povo. Tinham também um quiosque de madeira junto ao Parque do Bonfim batizado “Esplanada do boneco”. O Boneco desapareceu e o quiosque deu lugar a um hotel, mas todas essas referências modelaram o stand da Feira de Sant’Iago, construído pelo pai de Isabel.
Um mês antes da sua abertura, toda a família investe todo o seu tempo na produção. Ana relembra com carinho os tempos de criança em que ansiava pelo fim da escola para poder ir ajudar a avó a fazer a Bolacha. Apesar do crescimento permanente do negócio, a família Piedade quer manter todo o processo artesanal. A massa continua a ser feita manualmente, estendida a rolo em cima da pedra mármore e colocada à mão nos fornos. Admitiram, porém, uma ajuda suplementar: as celhas de barro foram substituídas por batedeiras industriais, pois como afirma a matriarca, a massa é muito dura e muito difícil de trabalhar em tanta quantidade. Também os fornos evoluíram de lenha para a eletricidade.
Apesar de, desde 2003, a Bolacha ser vendida todo o ano na pastelaria, o período de maior afluência é sempre o pino do verão devido à Feira de Sant’Iago, onde mantêm a tradicional banca, com as balanças ancestrais e uma pequena explanada com a cerca pintada com as cores da casa e aos imigrantes que levam a bolacha na bagagem para o mundo inteiro. Também participam noutras festividades marcantes da cidade, como a Fest’Asso, da União das Freguesias de Setúbal.
Também as exigências do consumidor fizeram evoluir o negócio. Antigamente a bolacha era mais espessa e por isso mais difícil de comer, agora, devido aos pedidos insistentes, a massa é mais esticada e a bolacha mais fina.
Mas afinal, como é possível ter tanta gente a trabalhar sem nunca perder o segredo? Isabel e Ana sorriem. Há na fábrica um cantinho especial. Por incrível que pareça, toda a massa é feita por uma só pessoa que recebeu a receita oralmente. Nenhum escrito, nenhum caderno, nenhum ficheiro guardado em sítio seguro. A receita não se pede, é um ritual que acontece quando a detentora acha que chegou o momento e, tal como uma herança preciosa, transmite à sua sucessora o legado.
É com muita satisfação que Ana olha para o empenho da sua filha no comércio, pois sabe que a Bolacha Piedade tem um futuro risonho assegurado. Apesar de terem aceitado o desafio de alguns revendedores, desejam manter o processo totalmente artesanal e à escala familiar como até agora. Já pode ser adquirida embalada, o que foi uma grande inovação para a quem a transporta para longe, nomeadamente de avião, muito embora continuem a vender a maioria avulso. Existem, porém, propostas bastante inovadoras de chefes da região que dedicaram o seu tempo à criação de uma sobremesa. O próximo passo pode vir a ser a criação de um gelado.
A Bolacha Piedade foi alvo de vários reconhecimentos localmente e a nível nacional, tendo recebido em 2002 a Medalha da Cidade. Para a Junta de Freguesia da União das Freguesias de Setúbal é uma imensa satisfação ter, no seu território, um produto tão emblemático e com um percurso intimamente ligado à história de Setúbal.