Fernanda Diniz não precisa de fazer barulho. Entra numa sala e, aos poucos, a dinâmica muda, a respiração abranda, os corpos alinham-se e o tempo fica mais lento. Professora de pawanmuktasana, uma variante do Yoga e voluntária no Centro Comunitário da União das Freguesias de Setúbal, traz consigo um modo raro de estar que implica serenidade, disponibilidade e atenção, características de quem sabe que cuidar é estar. E ela está.
Quando lhe pedimos para se definir, a coisa complica-se: é professora de yoga. É fotógrafa. É mãe. É imigrante. É muitas coisas e nenhuma delas cabe inteira numa frase. Porque Fernanda é, acima de tudo, alguém em permanente evolução. Busca-se a si e aos outros, busca um sentido mais profundo para estar no mundo, que considera apenas uma passagem. “A Fernanda aqui dentro é alguém que eu estou a descobrir todos os dias”, diz.
Veio do Brasil com a vontade de recomeçar. Cansada da lógica exaustiva dos eventos fotográficos, decidiu transformar a transição de país numa mudança de continente numa mudança interior. Fez a formação em yoga não para ensinar, mas para se reencontrar e, sem que tivesse planeado, a vocação encontrou-a ou talvez sempre lá tivesse estado, à espera de crescer.
Começou a dar aulas na escola Bodhi Chandrá, logo após a sua chegada. Depois, num acaso, descobriu o Centro Comunitário da União das Freguesias de Setúbal onde demonstrou o desejo de ser voluntária.
Pawanmuktasana, um nome difícil
Na primeira reunião, ouviu-se uma hesitação: "Yoga? Já temos." Mas Fernanda não trazia apenas yoga, trazia uma prática rara, a pawanmuktasana. Um nome que, à primeira vista, parece uma travessura. Mas por trás da pronúncia difícil, esconde-se uma proposta acessível, delicada e eficaz, especialmente pensada para quem tem mais histórias no corpo.
Trata-se de uma prática baseada em movimentos simples, mas realizados com intenção e uma respiração específica. Abrir e fechar as mãos, por exemplo, torna-se num exercício de consciência e de autocuidado. “Estou a sentir cada falange, cada articulação... e se dói, levo foco. A energia vai onde vai o olhar.”
Fernanda fala assim: com o corpo e com o coração ligados. O yoga, para ela, é a ponte para algo maior, para que cada pessoa reencontre o seu eixo, alivie uma dor, durma melhor, respire conscientemente ou se desenvencilhe das suas angústias.
Silêncio e continuidade
Os utentes do Centro Comunitário não demoraram a perceber. Chegam às aulas com assiduidade impressionante. Não faltam. “Fizesse sol, chuva, furacão ou terremoto”, brinca Fernanda, “eles estavam lá.” E se no início havia conversa solta e dispersão, hoje há um silêncio sem mácula. Os corpos alinham-se. Cada um, no seu tempo, aprendeu a olhar para dentro.
A prática de pawanmuktasana tornou-se num ritual indispensável para os frequentadores assíduos. Os relatos multiplicam-se: menos cãibras, menos dores, melhor sono. “Mas o mais bonito”, diz Fernanda, “é ver a transformação na atitude individual. É perceber que estão mais presentes.”
De regresso em setembro
Fernanda teve de fazer uma pausa recente, por motivos pessoais, mas já está tudo preparado para o regresso. Em setembro, as aulas voltam e há quem esteja só à espera da porta abrir.
O compromisso de Fernanda com a União das Freguesias de Setúbal não se mede em horas nem em número de aulas. Mede-se no impacto subtil e duradouro que tem deixado nas pessoas. Mede-se na maneira como transforma as pessoas e como se deixa transformar por elas.
Afinal, como ela própria diz, “nós somos um só. Pensamos que somos indivíduos, mas somos parte de um todo.”
E Fernanda Diniz é isso mesmo: uma parte que veio para nos unir.