Festival do Bairro, a curadoria do olhar comum

Festival do Bairro, a curadoria do olhar comum

Ainda se faz sentir um calor abrasador no fim de tarde na Casa da Cultura de Setúbal.

É num ambiente descontraído, quase de grupo de amigos que Rui Tendinha, acompanhado da atriz Anabela Moreira e do realizador setubalense António Aleixo recebem os primeiros convidados no bar, onde um lanche os espera. No meio da agitação discreta, acontece a primeira sessão de visualizações do Festival do Bairro – Cinema na Rua.

Rui Tendinha está em movimento, mas não pretende estar em palco, O que ele quer é ficar nos bastidores, ou melhor: facilitar a entrada de anónimos no palco.

A cena resume o espírito deste novo projeto cultural, que se propõe reinventar a programação cinematográfica a partir dos bairros. Com direção artística do jornalista e programador, o Festival do Bairro – Cinema na Rua é uma iniciativa da Câmara Municipal de Setúbal, financiada pelo Plano de Recuperação e Resiliência (PRR), no âmbito da medida Comunidades em Ação. O que distingue esta proposta de tantas outras é o seu modelo participativo: os moradores da União das Freguesias de Setúbal são convidados a fazer parte do comité de seleção cinematográfica. Serão eles, com o apoio de Rui, os curadores da seleção de filmes que vão ser exibidos em 2026 em locais de vida como praças, coletividades e outros espaços não-habituais da cidade.

Rui Tendinha não é um nome estranho a quem acompanha o jornalismo cultural em Portugal. Desde os anos 90 que vem traçando um percurso singular, misto de crítica cinematográfica, curadoria e ativismo cultural. É autor do programa “Cinemax”, colabora regularmente com o canal SIC Notícias e é presença habitual em festivais internacionais, como repórter e jurado. Durante vários anos, assinou as críticas do Diário de Notícias e, mais recentemente, tem mantido uma presença influente no Cinecartaz do Público e na plataforma digital “A Janela Encantada”.

Em Setúbal, tem vindo a afirmar-se como dinamizador de eventos que cruzam o cinema com território. Foi media partner do FilmFest (o festival de cineconcertos da cidade), propôs o Curtas no Mercado, iniciativa que transformou a praça num espaço de projeção e festa e, com este novo Festival do Bairro, volta a apostar num modelo que aproxima o cinema da vida real.

“O cinema tem que ser visto com outro olhar”, diz-nos durante a conversa, não é só gostar ou não gostar. A ideia é que as pessoas discutam, reflitam, percebam o trabalho do realizador, do ator, da música. Compreender que há camadas nos filmes.
 
A proposta é, em si, disruptiva: devolver às pessoas o poder de decidir quais os filmes que querem ver projetados e dar um pontapé de saída para um festival que pode vir a inscrever-se no tempo. A ambição é que cada sessão seja um pequeno laboratório, onde se aprende a olhar e a argumentar, com espaço para o gosto e para o desconforto. Com o apoio do Centro Comunitário da União das Freguesias e em articulação com as associações locais, estão a ser recrutados moradores com mais de 16 anos para integrar o júri que avaliará curtas e longas-metragens portuguesas. A escolha final comporá o alinhamento de um festival que culminará, em 2026, com um fim de semana de projeções em diversos pontos da freguesia.

“O que me atrai neste projeto é que os programadores não são cinéfilos profissionais. São pessoas de bairros diferentes, com referências diversas, e que nunca imaginaram ter nas mãos a responsabilidade de escolher filmes para um festival. Isso tem um potencial enorme. O olhar deles é o que vai definir o festival”, afirma.

O que se está a construir em Setúbal é uma experiência de coautoria cultural. “Isto não é só para ver filmes. É para se estar junto”, sublinha Rui. As sessões decorrem em lugares acessíveis e informais tal como coletividades, largos ou mesmo um adro de igreja, e cada projeção é antecedida por uma conversa ou encontro com profissionais do cinema. O objetivo não é ensinar, mas criar relação.
 
O projeto tem por objetivo chegar a um consenso sobre uma dezena de curtas, meia dúzia de longas e uma comunidade de espectadores cada vez mais ativos. A dificuldade maior, reconhece Rui, é manter o envolvimento: “As pessoas têm as suas vidas, há resistências, há o calor, mas tudo conta. O convívio conta. A conversa conta. É preciso tempo.”

Ao longo da entrevista, Rui volta várias vezes à ideia de formar o olhar. Ver cinema não é apenas consumir imagens, é abrir espaço para outro tempo, para um ritmo mais lento das narrativas, para a empatia. “Há filmes que permanecem connosco. Às vezes, nem sabemos porquê. Isso é a força do cinema.”
E é também isso que o Festival do Bairro quer trazer para a rua. Reconciliar as pessoas com o ir ao cinema, associado ao prazer que isso procura. Um cinema que seja lugar de encontro, de dúvida, de revelação. “Isto é um privilégio”, afima “Poder ver filmes, e decidir o destino desses filmes, podendo até mudar o rumo que lhe estava destinado.”

Por agora ainda estão abertas as inscrições para o comité de seleção do Festival. Se tem mais de 16 anos, vive na União das Freguesias de Setúbal e quer fazer parte desta experiência de construção cultural coletiva, envie um e-mail para Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar. com o seu nome e contacto. Não precisa de ser especialista. Só precisa de querer ver, pensar e discutir cinema. O festival agradece. O cinema também.

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